Campo Grande tem prefeita no cargo e prefeito de fato. A caneta é de Adriane Lopes, mas o comando é de Lídio Lopes. O fluxo é simples e conhecido nos corredores do Paço Municipal: processo só anda se o marido autorizar. O gabinete da Assembleia virou extensão da prefeitura. A fila de fornecedores aprendeu o novo rito. Primeiro o “ok” dele. Depois a assinatura dela.
Secretários operam sob um protocolo não escrito. Projetos, ordens de serviço e pagamentos dão marcha a ré quando não passam pelo crivo do gabinete paralelo. A cidade precisa de gestão, mas ao invés disso recebe tutela doméstica. A estrutura pública foi convertida em condomínio político com regras de família e consequências de governo.
Nada ilustra melhor a dissonância entre discurso e realidade do que a denúncia recente da vereadora Luiza Ribeiro. Ela expôs contratos milionários para substituição de luminárias com a Construtora JL, assinados no ano passado, que teriam recebido reajustes de 24,95% a 24,96% perto do teto legal, enquanto as lâmpadas seguem queimadas nos bairros. Faltam remédios básicos nas unidades, mas sobra verba para aditivos precisos e generosos. A parlamentar promete levar o caso ao Ministério Público para investigar se o serviço foi efetivamente prestado.
A fala da vereadora escancara o paradoxo da gestão. O caixa some para aquilo que não entrega e falta para o que salva vidas. Insumos de saúde viram promessa, luminárias viram contrato. A prefeitura diz que está apertando o cinto e a planilha mostra que o cinto aperta sempre nos mesmos lugares: remédios, exames e profissionais. O resto encontra espaço no orçamento e, curioso, velocidade no trâmite.
Enquanto a prefeita percorre agendas e redes sociais, a engrenagem real funciona noutro endereço. A autorização que interessa não sai do gabinete oficial. Sai do escritório político do marido. Quando convém, a prefeitura é técnica. Quando interessa, vira balcão. O município precisa de governança, mas recebe hierarquia conjugal.
Já o resultado aparece no cotidiano, com obras paradas, serviços capengas, servidores desmotivados, fornecedores descrentes. A transparência vira vitrine opaca. O planejamento dá lugar ao improviso. A prioridade é uma palavra elástica que se ajusta ao desejo do comando paralelo. Campo Grande paga por um arranjo que ninguém elegeu.
O discurso moralista não resiste ao teste da rua escura. A cidade que corta gastos no posto de saúde autoriza aditivos milimétricos para contratos que não brilham na prática. A denúncia de Luiza Ribeiro não é um raio isolado. É um retrato repetido da mesma moldura. Muito dinheiro para pouca entrega. Muita pose para pouca gestão.
Quando a assinatura vale menos do que o aval do marido, a república municipal se apequena. A prefeita vira fiadora de um método. O método que troca planejamento por telefonema, governança por influência e prioridade pública por conveniência privada. E o contribuinte vira figurante em enredo de poder doméstico.
Campo Grande merece uma prefeitura com chefe e responsabilidade, não uma estrutura que responde a quem não ocupa o cargo. O povo não tem obrigação de bancar capricho de gabinete paralelo. Tem direito a serviço funcionando, contrato cumprido e conta explicada.
No fim, a pergunta continua em pé e mais urgente: quem governa Campo Grande? Porque, entre reajustes generosos para luminárias apagadas e prateleiras vazias nos postos, a resposta que ecoa é a mesma. Quem decide não é quem assina. E quem assina não manda.
fonte o consumidor.com







